segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Crescer com saúde e consciência

Há quase dois anos que não escrevia aqui. E nestes dois anos senti que o mundo foi mudando um pouco. O meu mundo mudou - com a chegada de mais um filho, há mais de um ano - mas o resto do mundo também me foi começando a parecer um pouco diferente.  Nesta segunda gravidez, senti que manter uma dieta vegetariana foi tudo bem mais pacífico que na primeira, já não houve ninguém a questionar-nos se iríamos "impor" as nossas escolhas ao nosso filho (como se não fizessem todos os pais o mesmo), não houve também nenhuma desconfiança por parte dos profissionais de saúde (as análises estiveram sempre óptimas, melhores até que na primeira em que era ovo-lacto-vegetariana) e até na maternidade tiveram imenso cuidado em arranjar-me comida adequada, chegando mesmo a nutricionista a ir comprar-me propositadamente um pacote de leite de arroz (apenas porque disse que não me dou muito bem com o de soja que era o que já lá tinham); o PAN já tem um deputado no parlamento e até nas escolas públicas já existe uma ementa vegetariana obrigatória para as crianças que a queiram pedir (embora se saiba que depois, na prática, as coisas não têm corrido tão bem como deveriam) e aparecem a cada dia novos restaurantes com cada vez mais e melhores opções vegetarianas. A verdade é que o veganismo tem vindo a crescer e os nossos filhos também. E a prova de que são saudáveis (o mais velho, em 6 anos, tomou uma vez antibiótico e umas 3 ou 4 vezes paracetamol) e tão bem desenvolvidos e enérgicos como qualquer outra criança tem ajudado também as pessoas que nos rodeiam a deixarem de questionar as nossas opções.

Mas, hoje, depois de ler um artigo que falava de alguns casos de crianças que seguiam uma dieta vegetariana e que tiveram problemas de saúde e em que alguns médicos defendem que alguns pais mais "radicais" deverão ser algo de uma intervenção do tribunal, voltei a sentir que afinal ainda é preciso falar muito sobre isto e afinal este tema ainda não é assim tão pacífico como eu começava a julgar. 

Se é verdade que é cada vez mais fácil para um adulto ser vegetariano ou vegan e se começam a ser cada vez mais inquestionáveis os benefícios que isto pode trazer para a saúde, também é verdade que afinal ainda existem muitos preconceitos em relação às crianças.

É verdade que algumas crianças podem ficar mal alimentadas com uma dieta vegetariana, claro, mas também é verdade que existem muitas crianças mal alimentadas com uma dieta omnívora. No tal artigo falavam de casos em que os bebés tinham deixado de mamar por volta dos 5, 6 meses e a partir daí tinham sido alimentados com um leite vegetal qualquer. Em primeiro lugar, é preciso salientar que, ao contrário do que dava a entender o artigo o leite materno de uma mãe vegan é tão bom como o de outra mulher qualquer. Na verdade sabe-se que não existem leites fracos e que o leite materno é sempre o melhor alimento até mesmo no caso de mães altamente subnutridas (o que não quer dizer que seja este o caso de uma mãe vegan, como é óbvio) porque o organismo mobiliza todos os seus recursos para o produzir e para alimentar da melhor forma o bebé. Na verdade o leite materno é muito superior a qualquer leite de fórmula porque tem uma quantidade de anticorpos e uma capacidade de se moldar ao bebé para quem é feito (sabe-se que até se altera naturalmente em função do género, da idade e da saúde da criança) que são impossíveis de reproduzir nas fórmulas. Então, aqui o primeiro erro foi essas crianças terem deixado de ser amamentadas. Depois disso é claro que não se pode alimentar um bebé com um leite vegetal qualquer mas também não se pode alimentar um bebé de meses com um leite de vaca qualquer. É por isso que existem fórmulas feitas de propósito para bebés com menos de um ano e estas fórmulas que tanto podem ser de origem vegetal como animal (afinal existem bebés alérgicos ao leite de vaca que morreriam se tivessem de o beber) são fabricadas especificamente para serem o alimento principal de um bebé, pelo menos até aos 12 meses de idade. É por isso que falamos em alimentação complementar: porque o alimento principal nesta fase é mesmo o leite, materno ou de lata, mas o resto é apenas um complemento. Então a verdade é que provavelmente também existem casos de crianças mal alimentadas e subnutridas porque lhes dão leite de vaca de pacote, dos do supermercado, que não são minimamente adequados para crianças com menos de um ano de idade. E com certeza que existirão também casos de crianças mais velhas com carências muito graves por serem mal alimentadas todos os dias à custa de hamburguers, bolachas, batatas fritas e refrigerantes. Mas destes não se fala tanto, ou pelo menos, quando se fala ninguém pensa em tribunal para esses pais irresponsáveis. Porquê?

Porque, infelizmente, ainda temos muita dificuldade em lidar com a diferença. E a verdade é que é muito fácil ficarmos presos aos nossos velhos hábitos e termos medo de os ver questionados. E quando essa mudança começa a apertar e a tornar-se cada vez mais óbvio que não podemos continuar com o que temos feito até aqui, é muito fácil começarmos a procurar defeitos nas pessoas que lideram essa mudança e razões para nos fazerem acreditar que ela não é possível. 

Portugal está a viver um período de seca das maiores da sua história. Na televisão,  jornais e meios de comunicação em geral não faltavam notícias sobre a seca e a falta de água, até há bem pouco tempo atrás. E até foi lançada uma campanha para incentivar a poupança de água. Mas a maior parte das pessoas e das notícias parecer querer continuar a ignorar que a indústria animal é a maior consumidora de água do planeta.

Porque com que cara é que podemos assumir, sobretudo perante as gerações mais jovens, que os nossos gostos são mais importantes que o futuro do planeta?! Com que cara é que podemos olhar os nossos filhos nos olhos e dizer-lhes que comer um bife ou um queijinho só porque nos sabe bem é mais importante do que deixar-lhes um planeta onde ainda se possa viver?! É muito simples, não podemos. Por isso é mais fácil acreditar que é preciso comer carne e é preciso beber leite, mesmo que até os cientistas de Harvard já tenham vindo dizer que o leite deveria sair da roda dos alimentos. É mais fácil continuarmos a acreditar que tudo o que temos feito até aqui tem mesmo de ser feito e que não podemos mudar porque simplesmente não é possível fazê-lo. É mais fácil espalharmos ignorância com este tipo de artigos do que olharmos para tantas pessoas que dão o exemplo de que é possível mudar. 

As pessoas que se tornaram vegetarianas ou vegans, na sua esmagadora maioria, não o fizeram por deixarem de gostar de carne, ou leite, ou queijo. Fizeram-no porque escolheram ouvir a sua consciência e porque perceberam que não vivem no mundo sozinhas, que os outros serem têm direito à vida e que não podemos continuar a destruir o planeta como temos feito até aqui. E nesse processo, muitas vezes, foi preciso abdicar de algumas coisas que nos davam prazer e procurar alternativas que, às vezes no início, podem nem parecer tão agradáveis. Mas rapidamente percebemos que não há nada que saiba melhor do que uma consciência tranquila.

Depois de perceberem isso, muitas pessoas, eu incluída, acabaram também por descobrir que até podiam viver mais saudáveis justamente por mudarem de hábitos. E a verdade é que por sermos obrigados a questionar o que sempre fizemos e a procurar alternativas, os vegans acabam por estar, na generalidade bastante bem informados em relação à alimentação. Vejo muitos pais e mães vegans a esforçarem-se por incluir ómega 3 na dieta dos filhos, por exemplo, usando nozes, sementes de chia e linhaça que são muito fáceis de misturar com outras comidas. Mas muitas vezes defende-se que a dieta omnívora é mais rica nestes nutrientes por causa do salmão e da sardinha, principalmente. Mas eu pergunto, que criança é que come estes peixes com a regularidade suficiente para obter níveis suficientes de ómega 3? Das que eu conheço, nenhuma. E, pela minha parte, posso dizer que quando comia supostamente de tudo deveria quase de certeza ter carência deste nutriente porque não comia nenhum destes peixes, de todo. E nunca tinha ouvido falar sequer em chia ou em linhaça, apesar de comer umas nozes de vez em quando. E este é apenas um exemplo de tantas outras coisas com que só passei a preocupar-de depois de me tornar vegan. Tenho a certeza que não é por acaso que as análises da segunda gravidez estavam melhores que na primeira (em que já não estavam más) até no que diz respeito à anemia.

E também é verdade que este tipo de alimentos, como a chia e a linhaça, nem sempre fizeram parte da nossa dieta e por isso acabam por ter de ser importados. E, sim, isso polui também, bastante. Ainda assim não tanto como a indústria da carne e a verdade é que é possível pensarmos em cultivá-los de forma mais sustentável, ao passo, que é impossível comer carne regularmente de forma sustentada.

Mas, a verdade é que sou optimista e que vejo quando leio artigos como este é que realmente o veganismo está a crescer, está a crescer tanto que assusta e incomoda muita gente, ao ponto de se escreverem artigos ignorantes que quase parecem feitos de encomenda para servir a indústria da morte que é a da carne e do leite.


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