sexta-feira, 3 de julho de 2015

Empatia e sofrimento

Há coisas sobre as quais me custa escrever porque quase me quero recusar a acreditar que ainda existem. As touradas são uma delas. Mas, infelizmente, tivemos ontem mais um desses tristes espectáculos na nossa televisão pública, pago com o dinheiro dos nossos impostos, e que me deixou a pensar em algumas coisas. 

Nem vale a pena entrar em grandes discussões sobre se os touros sofrem ou não. Se olharmos bem, para dentro do nosso coração, todos sabemos bem que sim. Claro que sim, todos os animais sentem dor, medo, receio. Todos sem excepção, por muito grandes ou majestosos que nos pareçam. Então o que é falta para que as pessoas que gostam de tourada o percebam? Sinceramente não sei. Falta-lhes provavelmente a capacidade de entrarem em contacto com as suas próprias emoções. 

A empatia é uma característica essencial para qualquer ser humano. Sentir empatia é o que nos permite sermos capazes de estar no lugar do outro. Sentir empatia permite-nos, durante alguns instantes, sentir aquilo que outra pessoa sente, ou outro animal, neste caso. Alguns investigadores descobriram que temos aquilo a que chamaram neurónios espelho, que estão na base da nossa capacidade de sentir empatia. Estes neurónios são neurónios que se acendem em função daquilo que vemos os outros fazer ou que ouvimos dizer. Por exemplo, se alguém nos está a contar uma história de grande sofrimento estamos verdadeiramente disponíveis e a ouvir essa pessoa, é possível que, no nosso cérebro, se acendam as partes que correspondem a esse sofrimento, fazendo com que nós também sejamos capazes de o sentir. E a ciência também descobriu que, no nosso cérebro, a dor física e a dor psicológica têm muitas semelhanças e produzem resultados muito idênticos. 

Isto quer dizer então que temos, dentro de nós, até de um ponto de vista fisiológico, uma certa tendência para não querer que os outros sofram e para querer o seu bem. Porque, quando tudo está bem e estamos ligados aos nossos instintos, sofremos com o sofrimento dos outros. E porque os nossos neurónios espelho também podem activar-se em resposta à felicidade dos outros, fazendo com nos sintamos felizes com a sua felicidade. 

Então, naturalmente a empatia é algo que faz com que tenhamos vontade de tratar bem os outros, de os ver bem e felizes. E a capacidade de sentir empatia faz-nos sofrer quando vemos o sofrimento dos outros. 

Então, porque é que as pessoas na tourada não sofrem quando vêem o touro sofrer? 

Porque, a partir do momento em que lhe é infligida dor física, tem de ser inquestionável esse sofrimento. A partir do momento em que o animal está a ser encurralado, provocado e atacado, ainda por cima em frente a uma multidão ruidosa, com luzes, barulho e tudo aquilo a que ele não está habituado e que nunca encontraria no seu ambiente natural, tem de ser reconhecido que existe sofrimento. Não é realista pensar que um touro não sofre na tourada porque, nesse caso, a evolução natural da espécie também não faria sentido nenhum. Um animal tem que ter um instinto de protecção, sem ele nunca saberia defender-se na natureza. Se um animal nascesse sem medo, isso significava que não saberia proteger-se e a selecção natural faz demasiado sentido para que isso possa acontecer. O medo é o que nos faz procurar protecção e pode servir para nos salvar a vida. Já ouvi defensores da tourada dizerem que o touro não tem predadores por isso não precisa de ter medo, mas tem: tem as pessoas. Infelizmente os touros têm predadores há muito tempo e, infelizmente, esses predadores somos nós. O facto de um touro atacar quando se sente atacado não quer dizer que não tenha medo. Quando as pessoas gritam ou batem em alguém que as ataca, não quer dizer que não estejam cheias de medo. Quer dizer apenas que, naquela altura, não somos capazes de encontrar outra solução. 

Mas, na verdade isso nem é importante. Porque nem precisamos de saber se um animal está a sofrer de verdade ou não para sentir compaixão por ele. Porque a empatia e a compaixão têm de ser instintivas. A empatia e a compaixão não dependem destas racionalizações e não dependem da nossa capacidade de esgrimir argumentos sobre se um bicho está ou não a sofrer quando é atacado. A empatia é algo que se sente não algo que se pensa. 
Por isso o importante é perceber o que é que impede os aficionados de sentirem empatia pelo touro? 

Alguns estudos mostram que sentimos mais facilmente empatia pelas pessoas com quem nos identificamos. É mais fácil sentir empatia por alguém que conheço e com quem tenho uma ligação ou com alguém que sinto ser igual a mim. Esta é uma das razões pelas quais acontecem tantas guerras: porque é mais fácil ignorar o sofrimento daqueles que sinto serem muito diferentes de mim. Na verdade isto foi altamente explorado pelos nazis ao tentarem convencer as pessoas que os judeus, e não só, eram muito diferentes delas, impedindo-as assim de sentir empatia por eles. Não podemos dizer que todos os alemães ou todos aqueles que não fizeram nada para impedir o holocausto eram maus. Assim como não podemos dizer que todos os que vão ou gostam de touradas são maus. 

Mas então o que acontece com essas pessoas que as impede de se ligarem a esse sofrimento que é tão visível? 

Não sei se alguma vez foi feito algum estudo para caracterizar as pessoas que gostam de touradas mas seria interessante que o fizessem, pois acredito que poderia explicar muita coisa. 

Por um lado, provavelmente, há nessas pessoas uma tendência para a racionalização excessiva. E é a racionalização que nos impede de sentir e que pode servir de bloqueio à empatia. 

Por outro lado, provavelmente, há uma incapacidade de encontrarem algum tipo de ligação com os touros. Muitos nazis tinham filhos e seriam incapazes de os ver sofrer, por exemplo. Mas, quando estavam perante o sofrimento dos judeus, crianças incluídas, faziam esta categorização que os impedia de os verem como pessoas iguais a si e que, por isso, sofriam o mesmo. Do mesmo modo também os brancos que tinham escravos e os castigavam só conseguiam fazê-lo porque se sentiam muito diferentes deles, porque eram capazes de os colocar numa categoria à parte de não-pessoas, que não sentiam as coisas do mesmo modo que eles e por isso os seus neurónios espelho não eram activados com esse sofrimento. 

Se é possível fazer isto com as pessoas ainda mais fácil será fazê-lo com animais. Fazemos menos isso com cães e gatos porque vivemos com eles diariamente, estabelecemos ligações e é mais fácil estabelecer aí uma ponte com eles. Mas é mais difícil com outros bichos, mais distantes que sempre nos habituámos a ver como estando numa espécie de categoria à parte. 

Mas, na verdade, enquanto não formos capazes de estender a nossa empatia a todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem mais diferentes e enquanto não nos mentalizarmos que, em alguma parte de nós, temos muitas coisas em comum com todas as pessoas e com todos os animais, como a sensação de medo e o instinto de protecção, por exemplo, então haverá muito pouca esperança de que acabem os conflitos no mundo. 

Enquanto insistirmos que temos o direito de nos divertir com o sofrimento de outro ser, então precisaremos sempre de nos refugiar na racionalização e de negar a nossa capacidade de sentir empatia. Porque se não o fizermos não seremos capazes de ver um bicho a sofrer e, não só não fazer nada, como ainda achar piada. Se não fizermos isso, se não desligarmos a nossa parte que sente e não bloquearmos a nossa capacidade natural de sentir empatia e de nos ligarmos ao coração dos outros sejam animais ou pessoas, então é impossível assistir serenamente a um espectáculo desses. 

Não sei se alguma vez se fizeram estudos sobre o impacto das touradas na sociedade mas acredito que esse vai muito para além do sofrimento que causam aos animais. Porque numa tourada não é só o touro que sofre, numa tourada sofrem os nossos instintos mais básicos de nos ligarmos a outro ser. Quando só somos capazes de sentir empatia por quem julgamos ser igual a nós a nossa vida também fica mais pobre porque se nos desligamos do sofrimento dos outros também nos desligamos da sua felicidade. 

E quem não perde essa capacidade pode ser feliz com a felicidade dos outros, pode ser feliz por ver um animal livre, na sua vida, sem sofrimento infligido propositadamente. Na verdade, quem consegue não perder essa ligação ao coração dos outros tem muito mais oportunidades de estar bem, de estar feliz, porque a felicidade passa por criarmos relações de harmonia, não de violência ou de agressão. A felicidade passa por encontrarmos formas de estarmos todos juntos nesta terra sem violências desnecessárias, sem desrespeitar a liberdade dos outros.  A felicidade verdadeira vem de nos sabermos mais iguais do que diferentes, de reconhecermos que, mesmo nos olhos de quem nos parece tão diferente como um touro bravo, há um coração, há um sentimento de estar vivo e um instinto de querer estar bem e a felicidade vem de reconhecermos que respeitar esse instinto é respeitar o nosso instinto também. O nosso instinto de construir vidas mais felizes e respeitadoras para todos. 

Porque a verdadeira felicidade vem de sermos capazes de escutar o coração e nunca será possível fazê-lo enquanto nos recusarmos a ver o sofrimento que existe mesmo defronte dos nossos olhos. A ciência mostra cada vez mais que já nascemos programados para estabelecer relações, existem estudos que demonstram que a solidão aumenta cerca de 50% as probabilidades de sofrermos um ataque cardíaco, porque o homem é um animal social. Porque precisamos dos outros para nos sentirmos bem, para sermos felizes. Mas a única forma de não nos sentirmos sozinhos é perdemos o medo de abrir o coração e de estabelecer pontes para outros corações e isso só é possível se não precisarmos de bloquear o nosso coração, se não tivermos medo de sentir empatia mesmo por aqueles que parecem tão diferentes de nós. 

Nunca poderemos ser felizes enquanto nos recusarmos a sentir empatia e a ver o sofrimento que existe mesmo diante dos nossos olhos. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crescer com saúde e consciência

Há dias li o excerto de um livro (A enzima prodigiosa, de Hiromi Shinya) em que este médico falava da sua ida para os estados unidos e de como a sua mulher e filhos pequenos começaram a ficar muitas vezes doentes neste país. Depois de várias complicações de saúde e de alguma pesquisa da sua parte, ele concluiu que estas doenças se deviam a uma mudança na alimentação que passou a incluir muito mais lacticínios quando se mudaram para esse país. Hiromi Shinya conta também que quando  os retiraram completamente desapareceram a dermatite atópica da filha, a colite do filho mais novo e o lúpus que, entretanto tinha sido diagnosticado à sua mulher também regrediu muito. Depois disto ele explica que começou "a compreender como a dieta é essencial para a nossa saúde. Isto aconteceu há mais de cinquenta anos e desde então examinei estômagos e cólones e estudei a história alimentar de mais de 300 000 pacientes.
Dediquei toda a minha vida a entender o corpo humano, na saúde e na doença. (...). Apercebi-me de que os médicos e os pacientes devem dedicar mais tempo a compreender os mecanismos da saúde do que a combater as doenças.
Nascemos com o direito à saúde; estar saudável é natural."
Esta última frase deixou-me a pensar em algumas coisas. Por um lado pensei no meu filho que está quase a fazer 4 anos, prestes a terminar o seu primeiro ano de escola, nunca tomou um antibiótico, nunca passou mais de 36 horas com febre e, este ano - que foi o seu primeiro ano de escola - faltou apenas um dia por ter estado doente. Na última consulta com a pediatra antes da entrada na escola ela tinha-se despedido dizendo que, provavelmente, íamos ver-nos antes da consulta de rotina seguinte, visto que esta entrada costuma trazer sempre várias doenças. Quando lá voltámos, apenas para a consulta de rotina, para pesar e medir, ela ficou espantada com as poucas vezes que ele esteve doente este ano (teve febre 3 vezes, mas todas passaram em menos de 36 horas, sem medicação) e com o facto de nunca ter tomado antibiótico e até comentou que não haveria muitos que pudessem gabar-se disso. 
Não defendo que a saúde do meu filho se deva apenas ao facto de ser vegan, acho que se deve a um conjunto de factores. Acredito que o meu filho é uma criança saudável por não consumir carne, nem lacticinios, por exemplo, mas também porque não come açucar, não bebe refrigerantes, consome pouquíssimos produtos processados e come imensa fruta. Acredito também que o facto de ter mamado até aos 25 meses - altura em que ele próprio decidiu parar - deu umas boas reservas ao seu sistema imunitário. Haverá sem dúvida outros factores que não são de ignorar como, por exemplo, até os aspectos emocionais e a genética, se bem que, neste caso, a história familiar nem é totalmente favorável. 
Acredito que é verdade o que diz o Dr. Shynia, que nos habituamos a viver com a doença e nos esquecemos que, quando estamos demasiadas vezes doentes alguma coisa não está certa.  Na verdade a única altura em que o meu filho teve realmente uma saúde mais frágil foi quando começou a comer papas com leite (já contei aqui). Foi nessa altura que esteve um período de tempo sem crescer e que teve um peso tão baixo que já nem entrava nas tabelas de percentis. Quando olho para as fotografias dessa altura, vejo que ele realmente tinha um ar frágil. Também foi nessa altura que apanhou a única gastroenterite viral da vida dele e que teve também uns três ou quatro dias com uma urticária enorme em todo o corpo. Depois de decidirmos cortar com todos os lacticínios, foram precisos apenas seis meses para passar para o percentil cinquenta de altura e 25 de peso. Hoje em dia tem uma altura acima da média: estava no percentil 75 há uns meses e no 50 de peso. E até a pediatra, que não era muito a favor de uma alimentação estritamente vegetariana (apesar de sempre nos ter apoiado no não comer carne nem peixe), na primeira consulta depois dessa mudança, comentou que ele estava realmente com uma cor muito mais saudável. 
Então se o estar saudável é realmente natural, é importante percebermos que não é normal que as nossas crianças estejam repetidamente doentes e que, quando isto acontece, alguma coisa deve estar errada e acredito que o excesso de lacticínios, carne e açúcar que se consomem hoje em dia têm uma boa parte da responsabilidade nestes casos. 
Mas, enquanto pensava em escrever este artigo tomei consciência de que, existe também um outro lado desta questão: o lado que sente que ainda precisa de provar às outras pessoas que a nossa opção está certa, como se a saúde do meu filho fosse uma espécie de prova de que o veganismo é realmente uma opção saudável. A verdade é que para muitas pessoas essa dúvida ainda existe. Se já vai sendo relativamente fácil começar-se a aceitar que os adultos podem viver bem e com saúde sem nenhum produto de origem animal, quando falamos de crianças, existem ainda muitas pessoas que pensam que os produtos animais são imprescindíveis para o seu crescimento. Já ouvi todo o tipo de coisas absurdas em relação ao meu filho e todo o tipo de comentários que espelham também uma preocupação genuína. 

Então o facto de haver crianças que crescem e se desenvolvem com tanta saúde numa dieta vegan serve para comprovar de que afinal é possível vivermos sem carne, é possível vivemos sem explorar animais e, mais importante ainda, é possível viver com saúde sem consumir nenhum produto de origem animal. Afinal o meu filho, como outras crianças vegans que conheço pessoalmente e virtualmente (o mundo das redes sociais tem destas coisas) são mesmo a prova de que é possível viver bem, com saúde, sem nenhum produto de origem animal. Mas, acontece que o veganismo não é nenhuma receita infalível para não se ficar doente, não é nenhuma garantia de que vamos ter saúde eterna e, apesar de poder contribuir para melhorar muitas condições, não é nenhum medicamento infalível para curar tudo o que nos aparece. 
E as crianças vegans, tal como as outras, por vezes também ficam doentes. Acontece que, quando uma criança vegan fica doente, geralmente o dedo é imediatamente apontado ao veganismo. Quando o meu filho parou de crescer estava cada vez mais magrinho, por causa do leite, não faltou quem pusesse em causa o facto de não comer carne. Houve mesmo pessoas que me chegaram a dizer que, se experimentasse dar-lhe carne um mês ou dois ia ver logo a diferença! 

E também não faltaram pessoas a duvidar da qualidade do meu leite - que claro, sendo vegetariana há tantos anos, devia ter falta de vários nutrientes essenciais - e a sugerirem que o leite de vaca, na forma de suplemento, iria fazer milagres. 

A verdade é que existe toda uma construção social que nos leva a acreditar que a carne, o leite e os ovos são mesmo essenciais se não para os adultos, pelo menos, para as crianças. E noto que ainda existem muitas pessoas que ficam mesmo espantadas de saber que o meu filho cresce e se desenvolve tão bem sem precisar de nada disso. Então cada vez que alguma criança vegan ou vegetariana fica doente é como se as pessoas usassem esse facto para dar vida aos seus fantasmas, aos seus receios, às suas crenças. E a verdade é que estas crenças estão ainda muito enraizadas. A verdade é que vivemos numa sociedade onde comer carne e leite ainda são vistos como sendo fundamentais para a saúde. E a verdade é que estas crianças põem isso em causa. E, para muitas pessoas, isso incomoda. Incomoda tanto que ficam à espera de ver aparecer a primeira falha, o primeiro sinal de que aquelas crianças não podem estar a crescer bem, não podem ser saudáveis. E é como se uma parte delas ficasse quase de vigia, à espera de poder dizer: eu bem te avisei, eu sabia que isto ia acontecer,  ao primeiro problema que surgir.


Porque se esses problemas não surgirem elas perdem a justificação para todo o seu comportamento. Porque se uma criança pode crescer tão saudável sem produtos animais então como é que podemos afirmar que eles fazem falta, que são precisos e que a indústria animal é um mal necessário para a sobrevivência da espécie humana? Se uma criança vegan cresce e se desenvolve com toda a saúde a que tem direito como é que podemos continuar a dizer que os produtos animais nos fazem falta? Que o homem nasceu para comer carne? Que o leite é essencial para os ossos? E, se essas coisas afinal não fazem falta, então como é que podemos continuar a justificar os maus tratos de que somos cúmplices diariamente quando pomos um bife ou um iogurte na mesa dos nossos filhos que, afinal, até parece que podiam crescer bem sem eles?

Se a carne e o leite afinal não são indispensáveis é apenas uma questão de comodismo, de egoísmo e de incapacidade para agir de acordo com o que sabemos que é certo e não é fácil aceitar isso. A verdade às vezes dói. E uma criança que cresce saudável contra tudo aquilo em que acreditávamos e defendíamos é como uma agressão diária ao nosso comodismo, ao nosso egoísmo, à nossa incapacidade de lutar por um mundo melhor e mais justo. 


Resta-nos a alternativa de pensar que os animais não sofrem assim tanto, que até podem nem ser muito mal tratados. Mas até os cientistas já vieram dizer que isso é mentira, que os animais têm consciência e sentimentos, sim. E qualquer pessoa que tenha vivido com um cão ou um gato sabe que isto é verdade. E os cães e os gatos não são diferentes das vacas, dos porcos e das galinhas.


E as redes sociais também já não permitem que ignoremos os maus tratos a que todos eles estão sujeitos diariamente, por causa do nosso comodismo, do nosso egoísmo, da nossa incapacidade de agir e de tomar posições.


Então fico muito contente que o meu filho tenha orgulho em ser vegan e que fico muito contente que seja um exemplo de como se pode viver de acordo com os valores de respeito e de não agressão e ser-se bastante saudável. E fiquei muito contente quando, há poucos dias, uma auxiliar nova da escola dele me contou que, um dia ele foi ter com ela e lhe disse: Olá, eu sou vegan. E tu? O que é que comes? Porque fico muito contente que ele tenha orgulho de viver de acordo com os seus valores, que não sinta que precisa de o ocultar ou esconder apenas porque os outros ainda podem ter alguma dificuldade em compreender ou aceitar. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Liberdade e coração

Hoje vi o vídeo de um conhecido apresentador de televisão a entrevistar uma convidada, no seu programa, que iria falar sobre alimentação vegetariana. Infelizmente não lhe foi possível falar muito porque foi constantemente interrompida com observações e comentários mesmo que nem sempre viessem muito a propósito. Fico feliz quando vejo que alguém consegue ter uma discussão válida e aberta sobre vegetarianismo ou sobre veganismo e ainda mais quando há uma possibilidade de que essa discussão chegue a muitas pessoas através da televisão. Mas, embora não tenha sido de todo isto que se passou neste caso, este programa deixou-me a pensar em algumas questões importantes.

Por um lado a primeira coisa em que pensei foi no discurso de muitas pessoas, discurso que eu própria já usei algumas vezes, de que cada um tem o direito de fazer as suas opções e de comer o que bem entender. É verdade que não posso obrigar ninguém a parar de comer animais e os seus derivados mas também é verdade que me sinto com cada vez menos tolerância para a questão das opções e das liberdades individuais de cada um, aplicadas a este caso.

Na verdade, desde que o meu filho nasceu que isto sempre foi algo que me foi apontado: o facto de, para muitas pessoas, as minhas escolhas estarem, supostamente a interferir com a liberdade dele. Claro que isso não faz sentido nenhum, uma vez que ninguém dá às crianças assim tanta liberdade ao ponto de as deixar escolher sempre aquilo que querem comer, ou fazer ou até vestir. Mas, independentemente desse argumento de que todos nós fazemos alguma questão de que os nossos filhos herdem e mantenham os nossos valores, a verdade é que comer ou vestir animais não são uma escolha e uma opção individual como tanto nos querem fazer querer. 

Se eu escolher encher-me de pão ou de açúcar ou de alcoól ou drogas, aí é uma escolha minha, sim. E, mesmo assim nem sempre, porque a sociedade também não permite consumir livremente heroína ou cocaína e os menores, hoje em dia, também não podem comprar álcool. Mas, na verdade, estas escolhas só afectam realmente quem as faz. Podem influenciar de forma mais indirecta as pessoas que lhes estão próximas, é claro e o mal que algumas coisas fazem à saúde também acaba por ter algum peso no sistema de saúde que, sendo público, acaba também por ser pago por nós. Mas, de forma directa, estas opções só afectam mesmo quem as faz.

Mas comer animais não afecta apenas quem os come. Para eu ter o direito de comer um animal, há um ser, ou vários, que precisam de morrer. E antes de morrer precisam de toda uma vida de sofrimento e escravidão. Então como é que isto pode ser considerado apenas uma opção individual?! Não há nada de individual aqui. Além de que, está mais do que demonstrado, que o consumo de alimentos de origem animal está a destruir o planeta e a ter consequências devastadoras, o que significa também que, cada vez que comemos um bife estamos a dar uma forte contribuição para que se esgotem todos os recursos do planeta e para que o mundo que os nossos filhos poderiam herdar passe a ter sérias possibilidades de deixar de existir. Então, gastar milhares de litros de água para comer um simples hambúrguer num planeta onde a água é um recurso cada vez mais escasso e onde tantas pessoa não têm o que comer porque gastam os seus recursos a alimentar gado que, depois é exportado para países mais ricos, também não será propriamente uma opção individual já que prejudica e coloca mesmo a vida de tantas outras pessoas em risco. 

Por isso acho que é importante termos coragem de parar com este discurso politicamente correcto de que são apenas opções e precisam de ser respeitadas como tal. Porque já diz o ditado a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro e os animais têm todo o direito de começar a ter também alguma liberdade. Já que até a ciência os passou a reconhecer como seres conscientes e merecedores de todo o respeito como o próprio título deste artigo demonstra: Não é mais possível dizer que não sabíamos

Outra coisa que me deixou a pensar neste programa foi a distância que ainda existe entre o coração e a cabeça de algumas pessoas. A certa altura o apresentador do programa dizia que sabe ser uma crueldade comer lagostas vivas mas que elas sabem tão bem que não resiste a fazê-lo. Realmente ninguém, no seu juízo perfeito, poderá negar que a indústria de produtos animais é cruel e desumana. Mas a verdade é que, para muitas pessoas, isso não é suficientemente importante quando comparado com o prazer que sentem ao comer esses animais. Isto significa que, racionalmente, as pessoas até sabem que é cruel e racionalmente, hoje em dia, também se torna cada vez mais fácil demonstrar que podemos viver com muito mais saúde se não consumirmos produtos animais.

Mas o problema é que o racional só não chega. Não é suficiente percebermos algo do ponto de vista intelectual, é preciso senti-lo também. O argumento da saúde é um dos que leva muitas pessoas a deixarem de comer carne, por exemplo e esta é uma decisão racional já que tudo indica que o excesso de carne nas dietas ocidentais é responsável por várias doenças, desde o cancro aos acidentes cardiovasculares. Conheço algumas pessoas que me dizem que comem cada vez menos carne e outras que me contam que já deixaram de beber leite, porque também perceberam o mal que faz à saúde. Mas estas pessoas quase nunca cortam a 100% com estes produtos, porque foi uma decisão racional e e, na verdade, se é apenas uma questão de saúde, comer carne ou queijo uma vez de x em x meses, não irá ter grande peso. Mas, quando se trata de uma questão de valores, cada vida é importante e não passa pela cabeça de ninguém dizer que vai dar um tiro em alguém só de vez em quando, ou que se bater em alguém só de vez em quando isso não fará muito mal.

Então, o que é importante é perceber porque é que é tão difícil fazermos esta ligação do racional com o coração. 

Jonathan Haidt, psicólogo americano, dedicou-se a estudar a área da psicologia moral e, este autor, defende que as nossas escolhas começam sempre nas emoções e, só depois, encontramos uma explicação racional para justificar o que escolhemos. Então é mesmo importante estarmos mais ligados às emoções e sobretudo permitirmos-nos sentir as consequências das nossas escolhas e opções. Ele explica que é possível ver que é no hemisfério direito - que está mais associado às emoções - que as decisões são tomadas, em primeiro lugar. Só depois da decisão estar tomada, algo que acontece de forma rápida e quase inconsciente, é que o hemisfério esquerdo - responsável pelo pensamento mais racional e analítico - entra em funcionamento tentando justificar a escolha que foi feita e procurando razões para o facto dela existir.

Por isso este autor explica que quando queremos que alguém mude a sua ideologia ou a sua posição em relação a um determinado tema não adianta muito usar argumentos racionais. Porque o mais importante é sermos capazes de falar com o hemisfério direito da pessoa, ou seja, com a parte mais ligada às emoções e, mais do que isso, sermos capazes de comunicar com o seu inconsciente. Já que é aqui que as decisões são verdadeiramente tomadas.

Acredito que é por isto que muitas pessoas que comem animais, como aconteceu neste programa, sentem necessidade de denegrir ou de atacar alguém que já deixou de o fazer: porque, em alguma parte de si, sabem que este comportamento é errado, que não está de acordo com as suas emoções. Em alguma parte de si, estas pessoas, sentem a incongruência de saberem que as suas emoções não estão de acordo com a razão. E isso torna-as mais agressivas até, por vontade de se dissociarem dessa sensação desconfortável. E, muitas vezes isto faz-se através de um mecanismo que, em psicologia se chama projecção: acreditar que é no outro que está a fonte de desconforto quando, na realidade, ela está mesmo dentro de si. Por isso quando alguém está a fazer troça de um vegan ou está simplesmente a atacar as suas posições, na verdade, o que essa pessoa está mesmo a mostrar é que se sente muito desconfortável consigo própria e com as incongruências que ainda não sabe como resolver.

Porque acredito que a grande maioria das pessoas sabe distinguir o certo do errado, a grande maioria das pessoas não seria capaz de viver com a consciência dos maus tratos e dureza que fazem parte da indústria animal e continuar a consumir esses produtos como se nada fosse.

Mas também acredito que a maioria das pessoas ainda não sabe como dar voz a essas emoções. Porque sempre que elas tentam espreitar surgem os medos, os medos de acreditar em algo diferente de tudo que defendíamos, o medo de por em causa tudo aquilo que tínhamos como certezas, os medos de fazer algo diferente do que fazem todos os outros, do que sempre fizeram os nossos pais, os medos de termos que abdicar do prazer, de ter trabalho, de não saber o que fazer, de não conhecer alternativas, o medo de ser diferente. Até o medo de se escutarem a si próprias, se seguirem o seu coração e as suas emoções. E estes medos podem ser tão fortes que paralisam e impedem a pessoa de fazer uma verdadeira escuta interior.

Desde que o meu filho nasceu que me apercebo ainda mais de como o medo de se ser diferente está tão enraizado. Quando era mais pequeno o medo das pessoas era o de como seria quando ele fosse para a escola, como seria quando percebesse que era o único vegan, como seria quando os amigos percebessem que ele comia coisas diferentes. E acredito que este medo de ser diferente contribui muito para que muitas pessoas tenham medo de se escutar, de ouvir o seu coração e a sua consciência.

Porque não acredito que nenhum coração, que nenhuma consciência goste de ver o sangue na sua mesa e nos pratos diariamente.

A verdade é que, como Melanie Joy, explica tão bem, o sistema do carnismo está feito de forma a que as pessoas não precisem de ouvir a sua coração ou a sua consciência porque, na verdade, todo o sofrimento animal fica escondido e não precisamos de o enfrentar verdadeiramente quando vamos ao supermercado buscar um bife ou um pacote de leite.

Mas as redes sociais e a internet têm ajudado a tornar esse sofrimento cada vez mais real e mais presente. E, a partir do momento em que somos capazes de fazer essa ligação entre o sangue e o sofrimento que estão por trás de um simples pacote de leite do supermercado nunca mais conseguimos esquecê-la.

Muitas das pessoas que se tornaram veganas fizeram-no através de um processo de sofrimento, porque foi preciso ouvirem essa voz dentro delas, foi preciso deixarem o coração falar e, ao entrarem em contacto com essas emoções ficaram também vulneráveis a todo o sofrimento que existe no mundo do consumo animal e a todo o sofrimento que, inconscientemente, também provocaram durante anos. Este não é um processo fácil, porque implica sermos capazes de lidar com essa culpa de saber que também nós fomos cúmplices disso durante tantos anos e sermos capazes também de lidar com essa nova realidade. Implica sermos capazes de olhar para um bife, para um pacote de leite e não vermos só a embalagem mas todo o sofrimento que a tornou possível. E dói tomar contacto com essa realidade. Mas é da vulnerabilidade que vem também a força. A força de nos sentirmos, finalmente, em coerência com os nossos valores. A força de nos sabermos capazes de defender os nossos ideais e também a responsabilidade de saber que não podemos ignorar esse sofrimento. A responsabilidade de saber que, a partir do momento em que tomamos conhecimento dessa realidade, não podemos voltar atrás e não podemos continuar de braços cruzados como se nada se passasse. Por isso é que tantos vegans se tornam também activistas, por sentirem que precisam de dar o seu contributo para acabar com o sofrimento animal, por sentirem que não podem continuar a ser cúmplices passivos desse sofrimento.

Não é porque somos ditadores e queremos que todos pensem como nós. É apenas porque gostávamos muito que todos pudéssemos viver num mundo melhor. Eu gostava que o meu filho pudesse viver num mundo onde não se torturassem touros por prazer, onde não se gostasse do sabor do sangue e da morte. Onde as pessoas não se achassem superiores a todos os outros seres e se sentissem no direito de matar e torturar em nome do prazer ou das suas comodidades. Gostava que o meu filho crescesse num mundo onde as pessoas se preocupassem com o planeta, com os seus recursos porque isso também significa preocuparmos-nos com os animais e com as outras pessoas. Acredito que se fôssemos capazes de viver em paz com os animais, se fossemos capazes de parar de os torturar em nome do nosso comodismo e de os reconhecer como seres dignos e merecedores de respeito e consideração, também seríamos capazes de viver muito melhor com as outras pessoas. Porque perceberíamos finalmente que todos somos habitantes desta terra e que todos temos o direito de estar vivos e de não ser mal tratados, atacados ou abusados. Porque só quando percebermos que uma pessoa não vale mais que um cão e que um cão não vale mais que uma vaca, que uma galinha ou um porco é que poderemos estar prontos para viver verdadeiramente em harmonia com o que nos rodeia.

E não acredito que tenhamos a opção de escolher comer ou vestir animais apenas porque queremos acreditar numa falsa liberdade. Assim como a guerra não é uma escolha individual, assim como eu não tenho o direito de escolher matar, torturar ou violar outro ser humano apenas porque me apeteceu, me deu jeito ou me fazia falta, também não o tenho direito de o fazer com os animais.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Educar para os verdadeiros direitos dos animais

Ontem em conversa com o meu filho de três anos e meio ele falou-me de ovos já não me lembro porquê. Eu disse que não os comíamos e ele respondeu: se os ovos fosse vegans nós já os podíamos comer.

Este frase deixou-me a pensar numa questão que já não é nova para mim mas que me deixa sempre algumas dúvidas: quando é a altura certa para explicar todas as implicações dos produtos animais a uma criança?


Para ele, alguma coisa ser ou não vegan, não tem o mesmo significado que para nós, como é óbvio. Ele compreende e aceita perfeitamente que nós só comemos comida que seja vegan mas não percebe o que está por trás dessa escolha e fico sempre na dúvida até que ponto lho devo explicar.
Para ele, ser vegan faz parte da identidade da família e é algo que ele percebe que está relacionado com a alimentação mas, na verdade, ele ainda não sabe exactamente o que distingue uma comida vegan de uma não vegan. ~

Uma criança desta idade precisa de se identificar sobretudo com a família, por isso, por enquanto, para ele é bastante pacifico que nós façamos algumas escolhas diferentes das dos outros e isso chega bem para que nunca tenhamos tido problemas em lado nenhum quando alguém come produtos animais à frente dele, mesmo que sejam gelados ou doces de chocolate, coisas de que gosta bastante. Basta dizermos que não é vegan e ele aceita perfeitamente porque, para uma criança desta idade, se tudo estiver bem, é fácil identificar-se totalmente com as escolhas da família e confiar nos pais. Na verdade é muito mais fácil neste caso do que se houvesse alguma alergia, por exemplo - a algum produto que ele não pudesse comer e nós continuássemos a consumir - porque é uma escolha da família, ele sente que isso faz parte da nossa identidade e está completamente confortável com isso.

Mas, isto não significa que ele saiba exactamente o que está por trás do conceito de veganismo.
Neste caso, senti que lhe devia explicar um pouco mais e optei por lhe explicar apenas que ser vegan implica que não comemos nada que venha dos animais e os ovos vêm sempre. Assim, como já lhe expliquei que as vacas têm leite, sim, mas que esse leite é só para os filhotes delas e não temos o direito de o tirar. Com estas explicações acho que lhe transmito o que para mim é o mais importante: que não temos o direito de comer o que quer que seja que venha dos animais porque eles não existem para a nossa conveniência.

Acho que, por vezes, podemos cair no erro de falar cedo demais às crianças no sofrimento que implicam as escolhas do consumo de produtos animais. E pergunto-me se é justo sobrecarregá-las com esse peso e se isso não acabará por ter o efeito contrário daquele que desejamos. Se sobrecarregamos uma criança com esta responsabilidade de conhecer todo o sofrimento que implica a indústria dos produtos animais antes dela ter alguma capacidade de lidar com isso, pode acontecer justamente o contrário do que queríamos que acontecesse: se aquilo é um peso grande demais para a criança carregar, se ela fica preocupada e impressionada com algo que, sendo tão pequena, não tem capacidade de mudar, então a sua única forma de lidar com isso poderá ser mesmo a de bloquear essas emoções, o que significa ignorar tudo o que estiver associado a elas e ficar como que dessensibilizada para esse mesmo sofrimento. 

Qualquer adulto que tenha tomado consciência do que está por trás da indústria animal e que tenha tomado a decisão de deixar de contribuir para isto sabe que não foi um processo fácil, tomar contacto com essa realidade. A incapacidade de lidar com essa realidade e de aceitar que ela existe é justamente uma das coisas que faz com que muitas pessoas reajam mal sempre que alguém as confronta com essa mesma realidade. É um processo que pode ser doloroso e até traumatizante. Então pergunto-me muitas vezes quando será o momento certo para permitir que o meu filho tome contacto com isto? E a resposta que me tem surgido sempre é que preciso de o deixar crescer mais para que isso aconteça porque quero que ele tenha o direito de continuar a ser criança.
As crianças que comem carne não têm nenhuma noção do sofrimento dos animais que lhes aparecem no prato, a maior parte das vezes nem chegam a fazer a ligação entre os animais que conhecem e aquilo que comem. Então se as crianças que comem carne não carregam esse peso, acho que as outras também não precisam de o carregar, pelo menos nos seus primeiros anos de vida, e enquanto não houver nenhuma razão para o fazerem. 

Acredito que o sofrimento do mundo deve ser deixado para os adultos porque são estes que têm capacidade de lidar com isso também a responsabilidade de o eliminar. As crianças devem continuar crianças, não acho que tenhamos de lhes esconder tudo, mas também não acredito que lhes devamos contar exactamente como tudo se passa, da mesma forma que não as protegemos de outras realidades terríveis como as guerras ou coisas do género.
Claro que, se algum dia ele insistir em comer algum produto de origem animal terei que tentar explicar-lhe, sempre de forma adaptada à sua idade, o que isso implica e o que estará por trás disso. Mas espero não ter de o fazer cedo demais e espero saber fazê-lo quando for a altura certa.  

Outra coisa que pode acontecer quando explicamos a crianças pequenas o que implica o consumo dos produtos animais é que elas podem ficar a pensar que, nesse caso, então todas as pessoas que os consomem são más o que, no meu caso e na maior parte dos casos, incluiria pessoas da família e de quem ele gosta bastante. Porque uma criança não tem a mesma capacidade que os adultos de perceber que o mundo não é só preto e branco. Uma criança não consegue perceber que o facto de uma pessoa ser cúmplice e contribuir para algo que está errado não a torna necessariamente má, porque existe toda uma franja de cinzento nas emoções humanas que, até para nós adultos, nem sempre é fácil de entender. 

Por outro lado, as crianças mais pequenas também ainda não têm uma verdadeira capacidade de entender esse sofrimento, ainda não percebem verdadeiramente o que é a morte nem o que isso implica e, quando são muito pequenas nem têm grande capacidade de sentir empatia. Por isso penso que a melhor coisa que posso fazer, para já, é simplesmente transmitir-lhe os valores de respeito pela vida dos animais e fazê-lo perceber que eles têm direito à sua própria existência e que não há nada que nos dê a nós o direito de usar o que quer que seja que venha de algum animal. 

Na verdade isto prende-se com uma discussão que surge até muitas vezes em grupos de vegans e de vegetarianos: se eu tiver galinhas e as tratar bem posso comer os ovos delas? E para mim é muito simples e é isso que eu quero que o meu filho aprenda antes de tudo o mais: mesmo que não haja nenhum sofrimento envolvido é errado pensar que temos o direito de usar o que quer que seja que venha de um animal. Primeiro porque, hoje em dia e com tudo o que temos ao nosso dispor não precisamos de nenhum produto animal para absolutamente nada. E, se não precisamos então é apenas uma questão de conveniência, de hábito, de preguiça até em procurar alternativas ou de incapacidade para deixar algo que nos dá algum prazer e não acho que estas sejam justificações suficientes. 

Sempre que aproveitamos algo que vem de um animal, como o ovo de uma galinha, aquilo que estamos a fazer é  a partir do princípio que aquele animal é um ser inferior e que temos o direito de nos sentir donos dele, já que até lhe damos casa e comida e festinhas de vez em quando e, por isso, temos também o direito de aproveitar o que quisermos quando quisermos. E isto não quer dizer que somos pessoas com menos princípios ou más ou que tratamos mal os animais mas quer dizer que não lhes damos os mesmos direitos que damos às outras pessoas, quer dizer que não os vemos da mesma forma e, para mim, isso é não é certo e é justamente o que está na base de tudo o resto que acontece de mal. 

Muitas pessoas que têm animais e até os tratam bem ficam ofendidas quando as comparamos aos donos de escravos. Mas sempre que oiço isto não consigo deixar de me lembrar da cabana do Pai Tomás, um livro que retrata muito bem a escravatura. Neste livro, o personagem principal, o Pai Tomás era um escravo que vivia com um dono bom, que o tratava muito melhor do que aquilo que era costume, lhe dava uma casa boa, boas roupas, boas condições de trabalho, etc. Nessa casa os donos gostavam dos escravo e os escravos gostavam dos donos, sentiam-nos quase como parte da família e seriam incapazes de os maltratar ou fazer algo que os fizesse sofrer. Até que um dia o senhor fica na falência e perante a alternativa de vender o Pai Tomás que, justamente por ter sido sempre tão bem tratado, era o seu escravo mais valioso porque era saudável, forte, bem educado, inteligente, sendo capaz até de ler e escrever coisa rara para um escravo ou de ter que vender quase todos os outros para se poder sustentar. Claro que, entre escolher o mal de todos ou o mal de um, foi o Pai Tomás que foi vendido e foi afastado da sua casa, da sua família e de tudo o que conhecia até então para dar início a toda uma outra vida de sofrimentos e maus-tratos. Aqui o que importa perceber é que estes donos nunca fizeram isto de ânimo leve, não eram más pessoas, gostavam genuinamente dos escravos e foi uma decisão penosa e muito difícil de tomar. Aliás o que eles sentiram foi que era uma decisão necessária justamente para salvar os outros todos. A verdade é que, por muito que gostassem dos seus escravos, estes donos, no fundo, viam-nos exactamente como todas as outras pessoas dessa época: como seres inferiores que, apesar de todo o amor e afecto que tinham por eles, não tinham exactamente os mesmos direitos que os brancos. Não porque os achassem maus ou indignos, simplesmente, porque os achavam diferentes, por muito absurdo que hoje nos pareça, nesta altura, as pessoas acreditavam que os escravos eram mesmo diferentes, que tinham outra consciência que os colocava num estatuto inferior ao dos brancos. 

Então a única forma de acabar como isto foi fazer as pessoas perceberem que os escravos eram iguaizinhos a elas e que tinham de ter exactamente os mesmos direitos. Só quando isto foi aceite - o que não aconteceu de um dia para o outro, é claro - é que as coisas puderam mudar de verdade. 

 E é isto que eu acredito que precisamos de fazer com os animais: perceber que, mesmo que sejam diferentes de nós, têm de ter os mesmos direitos e privilégios e isso implica não usarmos nada que venha deles porque, enquanto o fizermos, estará sempre presente a visão utilitária que nos diz que temos o direito de usar alguns produtos animais. Acontece que, a partir do momento em que nos sentimos no direito de usar o que quer que seja que venha de um animal apenas para a nossa conveniência, então é uma linha muito ténue que fica traçada entre a nossa capacidade de reconhecermos a individualidade e os direitos daquele animal e o sentir que podemos dispor dele à nossa vontade. 



E, mais do que qualquer outra coisa é mesmo isto que quero transmitir ao meu filho: que os animais podem ser diferentes de nós em algumas coisas, mas que têm de ser iguais nos direitos e que essa diferença não nos dá o direito de acreditar que podemos usá-los ou aproveitar o que sai dos seus corpos para o que quer que seja, mesmo que isso não implique violência ou maus tratos. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Aprender com empatia

Recentemente soube que os alunos do segundo e terceiro ciclo andam a mexer, nas aulas, em cadáveres de peixe e corações de porco. E acabei de saber também que, na escola do meu filho - de que gosto bastante - as crianças do quarto ano andaram a mexer nas entranhas de um animal que, segundo me disseram, deveria ser um porco.

Sou a favor de um ensino mais activo, em que as crianças possam mexer e sentir e em que não tenham de aprender só com os livros mas a questão é que isso precisa de ter limites. Principalmente quando falamos de crianças. Se, numa faculdade de medicina ou veterinária, os alunos têm obrigatoriamente de ver e de mexer em cadáveres para treinar determinadas aptidões, isso não é propriamente o caso de um adolescente e muito menos será o caso de uma criança do quarto ano.

Quando se leva o cadáver de um animal para dentro de uma sala de aula, com crianças que não estão propriamente a estudar medicina ou veterinária, que mensagem é que estamos a transmitir a essas crianças ou jovens?
Que a vida daquele animal vale tão pouco que até pode ser usado apenas para exemplificar coisas que podiam perfeitamente ser aprendidas com recurso a algum tipo de modelo de plástico, livros, filmes, etc.

E é claro que é sempre muito mais motivador e gratificante para as crianças aprenderem com o mundo real, quando podem fazê-lo, em vez dos livros. Mas isto não pode ser válido para tudo. Não vamos ensinar a um jovem o que é uma guerra, ou o que foram os campos de concentração, por exemplo, fazendo-o passar por essas experiências.

O que é que implica levar o corpo de um animal morto para dentro de uma sala de aula em que se está apenas a estudar anatomia?

Em primeiro lugar há todo o desrespeito para com o animal morto que está assim a ser usado e manipulado numa sala de aula. Depois a mensagem de que a vida daquele animal não tem qualquer valor e a sua morte não merece o mínimo de dignidade.

Algumas pessoas dirão que o corpo do bicho já estava no talho e que, de qualquer modo, seria comprado e comido. Mas, apesar de tudo, é um acto diferente comprar um animal para comer quando acreditamos que precisamos disso para sobreviver ou usá-lo assim, numa sala de aula, apenas para que os alunos possam aprender de maneira diferente.

Nesse caso poderíamos dizer que nos hospitais também haverá muitos cadáveres de pessoas que, de qualquer maneira já estariam mortas, mas ninguém se atreveria a levar um cadáver de uma pessoa para uma sala de aula do quarto ano ou mesmo do ensino secundário. E porquê? Porque sentimos que as pessoas nos merecem mais respeito que os bichos, mesmo depois de mortas.

Mas para além destas questões éticas fundamentais e da falta de dignidade com que tratamos os animais há que pensar também no efeito que isso terá nas crianças.

Por um lado, há aqui a questão do respeito pela sensibilidade de cada um. Que não tem de ser toda igual. Nem todas as crianças, ou adultos, têm a mesma sensibilidade. E não têm de ter. E ainda bem que não têm. Nem todas a pessoas seriam capazes de ser médicas, de mexer em feridas, de abrir corpos, de lidar com sangue. Na verdade nenhum médico aprende a fazer isso assim de ânimo leve, precisa de haver algum treino que passa, de certo modo, por um certo grau de dessensibilização para essas experiências.

A neurociência descobriu há pouco tempo que todos nós temos aquilo a que se chamou neurónios espelho. Esta é uma parte do nosso cérebro que parece estar desenhada para reflectir aquilo que vemos nos outros. São neurónios que disparam apenas por vermos as outras pessoas desempenharem algumas acções. Acredita-se que estes neurónios podem estar na base da empatia, que passa pela nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, pela capacidade de sentir aquilo que que os outros sentem. Então estes neurónios parecem desempenhar um papel essencial para a vida em sociedade.

É através da empatia que aprendermos a importar-nos com as outras pessoas. A empatia é o que nos permite criar uma ligação, estabelecer uma relação. A empatia é que nos permite querer cuidar dos outros e importarmos-nos com os seus sentimentos. Quem não sente empatia não se importa com as outras pessoas, ou animais. Quando não conseguimos sentir empatia com alguém não conseguimos importar-nos com aquilo que a outra pessoa sente. É o caso dos chamados psicopatas, pessoas cuja experiência de vida nunca os ensinou a importarem-se com os sentimentos dos outros, provavelmente porque nunca sentirem que ninguém se importasse com os seus em primeiro lugar.

É mais fácil sentir empatia quando existe algum grau de identificação com o outro. É mais fácil sentirmos empatia por pessoas com quem nos identificamos, pessoas do mesmo país, ou com a mesma profissão, da mesma idade, mesmo género, etc., porque mais facilmente conseguimos colocar-nos na sua pele.

No entanto é muito importante que sejamos capazes de alargar o nosso círculo de empatia. Porque se só somos capazes de sentir empatia por aqueles que são iguais a nós, então, é meio caminho andado para criarmos exclusão e conflito. E essa é uma das razões para haverem tantas guerras: o facto de acharmos que determinados povos são tão diferentes de nós que já nem conseguimos colocar-nos no lugar deles, pelo menos não o suficiente para querermos a todo o custo impedir o seu sofrimento.

Por isso é que também nem sempre é fácil sentir empatia com os animais, porque nos parecem tão distantes e diferentes que temos alguma dificuldade em nos colocar no lugar deles. Principalmente quando falamos de animais que não vemos diariamente e com quem não estamos habituados a conviver. Apesar de tudo é, geralmente, mais fácil sentir empatia por um gato ou cão porque estamos habituados a conviver com estes animais e é-nos mais fácil ou mais rápido construir um mapa mental daquilo que eles estarão a pensar ou a sentir. Por isso, de certeza, que também não passaria pela cabeça de nenhum destes professores levar o cadáver de um cão ou gato para ser estudado na aula.

Por isso é tão importante percebermos que os porcos, vacas e galinhas são animais tão inteligentes e sensíveis como os cães ou os gatos. São animais que têm exactamente a mesma capacidade de sentir que os animais que temos em casa e merecem exactamente o mesmo respeito e a mesma consideração. 

Ultimamente tem-se falado, um pouco por todo o mundo, no 70º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz, e os campos de concentração só aconteceram justamente porque foi possível que as pessoas deixassem de sentir empatia para com aqueles que lá estavam. Porque, de algum modo, se tornou possível que passassem a acreditar que elas eram tão diferentes de si que não era imediata essa tendência para se colocarem na sua pele. Este extermínio que aconteceu nos campos nazis só foi possível porque as pessoas se dessensibilizaram para o sofrimento dos outros. Os guardas destes campos não eram todos psicopatas perigosos, eram pessoas normais que o sistema e a propaganda nazi levaram a acreditar que eram diferentes dos prisioneiros desse campo. E tudo o que aconteceu nesses campos mostra como é tão perigosa essa perda de empatia. Mostra como pode ser tão grave o facto de só sermos capazes de sentir empatia por aqueles que acreditamos que são iguais a nós.

Ainda há pouco tempo li algumas declarações de um sobrevivente de um desses campos que dizia que aquilo que foi feito aos judeus (e não só) nessa altura, é exactamente igual ao que se faz aos animais hoje em dia. (ver aqui esse artigo)

E o que está na base disso é justamente a falta de empatia e a incapacidade de nos pormos no lugar dos animais que torturamos todos os dias neste mundo.

E essa capacidade de sentir empatia significa que ficamos impressionados ao ver um corpo, uma ferida, um pedaço de animal que sabemos que precisou de sofrer para estar ali. Porque temos um mecanismo inato que nos impede de gostar de ver sangue ou corpos, ou feridas. Ninguém fica indiferente ao cadáver de uma pessoa, porque não seríamos capazes de nos dissociar tão facilmente daquilo que ela sentiria.

Há quem diga que esse é um dos perigos dos jogos e filmes violentos: criar um mecanismo de dessensibilização com o sofrimento e com a violência. Então, se não queremos criar filhos insensíveis, pergunto, porque raio é que lhes pomos cadáveres na mão? Porque é que esperamos que eles desliguem essa capacidade de sentir empatia apenas em nome da aprendizagem?! Porque é que achamos que deverá ser natural que eles tenham de contrariar os seus instintos mais básicos para aprender?

Existem tantas outras formas de ensinar as crianças de maneira diferente e divertida sem precisarmos que elas se desliguem deste modo dos seus sentimentos mais básicos e mais nobres que, quando penso nisto, não posso deixar de me lembrar de uns desenhos animados que havia quando eu era criança e que se chamavam Era uma Vez a Vida. Ainda hoje, quando penso em hemoglobina, me lembro sempre daqueles bonequinhos divertidos que andavam de um lado para o outro com as bolinhas de oxigénio nas costas. Para mim, que não sou médica e não preciso de conhecer bem por dentro o corpo de ninguém, esses desenhos animados serviram-me perfeitamente para compreender o funcionamento do corpo humano. E, honestamente, hoje em dia, acho bem mais simpático ter na minha cabeça a imagem desses bonecos simpáticos do que a imagem de um pobre bicho esquartejado em cima da mesa de uma sala de aula qualquer. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cozinhar um mundo saudável

Durante as férias de Natal tive de cozinhar em casa de familiares e, por isso, tive de dividir a cozinha com cadáveres que eram preparados ao mesmo tempo que preparávamos a nossa refeição vegan. Se já é desagradável comer com cadáveres na mesa, é ainda mais difícil ver esses pedaços de cadáver assim crus, em cima da bancada a serem manipulados por pessoas que se esquecem que aquele pedaço de carne um dia foi um ser vivo, com consciência, capaz de sentir dor e com direitos que, infelizmente, nunca foram respeitados. E, ao ver mães a preparar esses pedaços de cadáver para os filhos não pude deixar de me perguntar: como é que se pode cozinhar sangue com amor?


Porque cozinhar é sempre um acto de amor. A alimentação está ligada ás nossas primeiras experiências de sermos cuidados por alguém. Alimentar um filho é muito mais do que cuidar apenas do seu corpo. Quando amamentamos um bebé estamos a dar-lhe oportunidade de sentir o corpo da mãe, de ouvir os seus batimentos cardíacos, de sentir o seu cheiro e isto, para um bebé, é a experiência mais parecida que ele pode ter com estar dentro da barriga da mãe outra vez. Por isso não é de estranhar que, desde pequenos, a alimentação tenha sempre alguma ligação com o nosso lado mais afectivo e emocional. Então não é de estranhar que a comida esteja associada a tantas coisas no nosso inconsciente. E, quando uma mãe cozinha para um filho, quase sempre fá-lo como um acto de amor, de cuidado e de carinho. Mas, como é que se pode ter um gesto de amor quando estamos a dar sangue, morte e violência aos nossos filhos? Quando lhes pomos restos de seres vivos no prato, que foram mal tratados e abusados a sua vida inteira, seres que nunca foram olhados com o mínimo de respeito ou de afecto, seres que nasceram apenas única e exclusivamente para o proveito das pessoas que os maltrataram e desrespeitaram desde o seu primeiro instante de vida, como é que podemos por toda essa violência no prato de uma criança e achar que estamos a cuidar dela?!

Apenas vivendo completamente dissociados da nossa consciência e dos nossos sentimentos podemos fazer isso. Temos que nos forçar a esquecer que já fomos crianças também, temos de nos forçar a esquecer que o nosso primeiro instinto, em tempos, foi gostar dos animais e não matá-los e comê-los. Temos que nos dissociar da nossa consciência ao ponto de nos esquecermos da nossa parte carinhosa, capaz de se ligar e de respeitar os animais que pomos no prato. Acredito que, se a grande maioria das pessoas não estivesse tão habituada a ignorar a sua consciência, o mundo seria muito mais vegan.

Isto é demonstrado também por filmes como o Cowspiracy, que tem sido bastante falado ultimamente, pelo menos nas redes sociais. Este documentário demonstra claramente que a indústria da pecuária é a maior responsável pela eminente destruição do planeta e de todos os seus habitats. Um dos exemplos citados no documentário é o da quantidade de água necessária para produzir um simples hamburguer de 450g que seria o equivalente a tomar um duche durante dois meses! Este é só um exemplo que demonstra bem o efeito devastador e o elevadíssimo consumo de recursos que requer o facto de andarmos a alimentar animais com grãos e plantas que precisam de ser plantados, para depois serem colhidos e engordarem esses animais que, por sua vez, irão alimentar apenas um número reduzido de pessoas, muito inferior ao que seria alimentado caso estas plantas fossem usadas para alimentar directamente as pessoas.

Então para além de uma completa destruição dos recursos e do planeta a indústria da carne contribui também para a fome em muitos países do terceiro mundo que são usados justamente para plantar alimento para esse gado que depois será vendido para os países mais ricos, enquanto os seus cidadãos passam fome.

Então, hoje em dia, sempre que vejo alguém a dar um bife ou hamburguer a um filho não posso deixar de pensar que aquela pessoa não tem a mínima consciência daquilo que está a fazer. Porque não só está a alimentar o seu filho com sangue e com violência mas, ainda por cima, está a contribuir fortemente para a destruição do mundo que ele irá habitar no futuro.

Então, se queremos alimentar verdadeiramente os nossos filhos precisamos mesmo de tomar consciência daquilo que lhes pomos no prato. Precisamos de saber que não podemos cozinhar sangue com amor e carinho, mas também precisamos de saber que cada um desses pedaços de cadáver que lhes pomos no prato é uma contribuição que damos para destruir o mundo deles. É uma contribuição que damos para destruir o mundo deles hoje, através da violência envolvida na morte da vida dos seres vivos que lhes pomos no prato, através da fome que outras crianças passam por causa dos campos que são usados para alimentar esses seres vivos e através da destruição das florestas, dos solos, dos oceanos e de toda a poluição e consumo de recursos que um simples pedaço de carne provoca.

Então é mesmo preciso que toda a gente tome consciência de que comer carne é um acto violento por todos estes motivos e não só. É um acto de violência e de desrespeito contra a vida dos animais mas, hoje em dia, também contra a vida de todos nós.

Dar um passo em direcção ao veganismo é assumir que não vivemos sozinhos no mundo. É assumir que precisamos de cuidar de nós, dos nossos filhos mas também do planeta que lhes vamos deixar. Adoptar um estilo de vida vegan, em alimentação e não só - reduzindo ao máximo o uso de produtos que envolvam o uso e sofrimento de animais - é admitir que não somos melhores que os animais só porque, aparentemente, somos mais inteligentes, é admitir que não temos o direito de destruir o mundo em que viverão os nossos filhos e netos e admitir que temos obrigação de pensar de uma forma verdadeiramente global.

Muitas vezes, temos tendência para pensar que os nossos actos não contam. Muitas pessoas, quando são confrontadas com os factos e com a eminente destruição do planeta e da vida têm tendência para se defender pensando que isso não deverá ser bem assim, ou que elas sozinhas não podem mudar grande coisa. Mas precisamos urgentemente de assumir que cada um de nós conta. Precisamos de ter coragem para mudar e para assumir responsabilidade pelas nossas acções, sem ficar à espera que seja o resto do mundo a mudar primeiro. Precisamos de nos lembrar que não estamos sozinhos no mundo, precisamos de ser capazes de ver mais longe do que o nosso próprio umbigo se queremos que os nossos filhos cresçam num mundo saudável. Pelo estado das coisas hoje em dia, precisamos mesmo de ser capazes de ver para além do nosso umbigo se queremos que os nossos filhos ou netos tenham mundo para crescer.

Porque pode parecer mais fácil não pensar nas coisas, pode parecer mais não as enfrentar, pode parecer mais fácil continuar a fazer o que sempre fizemos sem nos preocuparmos muito. Mas, na verdade, não o é. Porque só podemos continuar a fingir que não se passa nada se nos distanciarmos de nós mesmos, da nossa consciência e da nossa verdadeira natureza. Porque ninguém quer viver num mundo cheio de violência, de fome e de poluição. Se a grande maioria das pessoas tivesse que ver a vida e a morte dos animais que consome acredito que deixaria de os comer muito mais depressa. Então o veganismo é um caminho que nos permite sentir muito mais ligados ao animais, sim, mas também à natureza, a nós próprios e às outras pessoas.

Muitos estudos mostram que a solidão é um dos piores sentimentos que as pessoas podem ter. Há estudos que mostram que o facto da pessoa se sentir sozinha pode diminuir até 50% a sua esperança de vida. Os bebés, desde o primeiro dia em que nascem, procuram estabelecer relações. Observações de crianças que viveram em orfanatos - sobretudo na antiga europa de leste - onde tinham todas as condições de higiene e de alimentação mas não lhes era permitido estabelecer ligações com ninguém, nem sequer umas com as outras (por medo de contágios) tinham uma taxa de morte muito superior à das crianças que viviam em casa, muitas vezes até em condições mais precárias. Isto demonstra claramente que o homem é um animal social, com uma grande necessidade de pertença e de se sentir parte de um grupo, como o demonstram também vários estudos que mostram que pertencer a um grupo religioso, ou associativo podem aumentar muito o grau de satisfação com a vida.

Então, tomar a decisão de seguir um estilo de vida vegan significa abraçar esta ideia de que somos todos parte de um todo. De que todos vivemos neste planeta e todos temos o direito de viver da melhor forma possível. E isto pode realmente ser uma forma de vivermos todos mais felizes e em paz.

E uma criança que cresce sabendo que não tem o direito de usar os animais apenas para sua conveniência é uma criança que cresce num mundo de respeito mas também de partilha. É uma criança que cresce sabendo que não são apenas os seus desejos que contam. E, na verdade, é isto que todos queremos que os nossos filhos aprendam: que não estão sozinhos no mundo, que não podem pensar apenas em si, que existem outras pessoas e outros seres com os mesmos direitos e que precisam de ser respeitados. E uma criança que cresce a saber respeitar os animais e o planeta é uma criança que cresce também a saber respeitar as pessoas.

Mas, sempre que um pai ou uma mãe põe um bife no prato de um filho aquilo que lhe diz é justamente o oposto: que existem seres inferiores, que podemos usá-los à nossa vontade, que não importa o seu sofrimento. Sempre que alguém põe um bife no prato de uma criança aquilo que lhe diz que é a violência até pode ser legítima desde que sirva os nossos interesses.
E, hoje em dia, no meu ponto de vista, sempre que uma mãe ou um pai põe um bife no prato de um filho, em última análise, aquilo que lhes diz é: não me importo com os animais ou com a natureza mas nem sequer me importo o suficiente contigo porque não estou disposto/a a fazer um esforço para te deixar um mundo melhor.

Então é muito simples se queremos realmente que os nossos filhos cresçam num mundo justo, bonito saudável e com relações mais harmoniosas entre todos, precisamos urgentemente de tomar coragem e de assumir de uma vez por todas a responsabilidade pelas nossas acções. E, se queremos que os nossos filhos cresçam a ser capazes de se importar com os outros e a respeitarem os animais mas também as pessoas e o planeta precisamos de começar por respeitá-los a eles e de não destruir o mundo que será deles com a nossa ignorância, com o nosso egoísmo e com a nossa incapacidade de agir. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Crescer com liberdade


Agora que começa a aproximar-se o Natal, com as típicas refeições em família que esta época implica uma das coisas que mais me começa a incomodar é a quantidade de doces que as pessoas comem com o uso de ingredientes animais. Porque até consigo compreender que alguém me diga que precisa de carne, peixe, leite ou ovos para viver e para se manter saudável - não concordo com esta afirmação, como é óbvio, mas compreendo que alguém a faça. Mas o que ninguém pode dizer é que precisa de um bolo de chocolate com chantilly para se manter saudável ou de um arroz doce para viver ou de qualquer outra sobremesa que tipicamente enche as mesas nesta altura.

Não consigo deixar de ficar chocada sempre que vejo alguém a fazer bolos cheios de ovos, ou leite ou a comer gelados carregados de leite e de natas, por exemplo. Porque que alguém acredite que precisa de carne ou leite para se manter saudável é muito diferente de acreditar que temos o direito de usar esses produtos apenas para fazer bolos, doces e todo o tipo de sobremesas que não fazem falta absolutamente nenhuma a ninguém.

Mas, na verdade, pensando bem isto faz todo o sentido dentro do sistema do carnismo, uma expressão cunhada por Melanie Joy. Esta psicóloga, professora e autora de livros e várias palestras em defesa do veganismo, criou esta expressão para designar um sistema que leva as pessoas a distanciarem-se cada vez mais das consequências dos seus hábitos - ao nível da alimentação e não só - e da forma como estes implicam o uso dos animais. Acredito que tem muito mérito a criação desta expressão e espero sinceramente que ela represente a capacidade que começamos a ter de perceber o que implicam as nossas escolhas. No tempo da escravatura a palavra racismo não existia, porque simplesmente se considerava ser uma realidade as pessoas de raça negra serem inferiores às brancas. No tempo em que as mulheres não tinham quaisquer direitos a expressão machismo também não existia porque se considerava que estas eram realmente seres inferiores.

É verdade que já existe a expressão especismo para designar a forma como descriminamos algumas espécies a favor de outras: por exemplo, no mundo ocidental poucas pessoas teriam coragem de comer um cão ou um gato mas a maior parte não hesita em comer vacas ou porcos. Mas a expressão carnista vai ainda mais longe para demonstrar que existe todo um sistema que, de forma automática ou quase inconsciente, procura preservar a ideia de que podemos fazer dos animais aquilo que quisermos e que eles existem apenas para satisfazer os nossos caprichos.

Porque não é nada mais que um capricho fazer um bolo de chocolate com quatro ou cinco ovos quando podemos perfeitamente fazer sem nenhum. Não é nada mais que um gesto de ignorância fazer um gelado com leite de vaca quando podemos usar leite de coco ou natas vegetais ou simplesmente fruta, por exemplo.

Mas este sistema do carnismo faz muito mais do que manter-nos na ignorância acerca das consequências dos nossos gestos. Este sistema afasta-nos de nós próprios, dos nossos sentimentos e da nossa natureza. 

Acredito numa evolução da espécie humana, acredito que o ser humano tem uma natureza boa e também acredito que, progressivamente, temos vindo a tornar-nos cada vez menos tolerantes com o sofrimento provocado pela nossa própria espécie. Basta pensar que na idade média, por exemplo, eram comuns rituais de tortura como o linchamento, o desmembramento, o enforcamento o queimar pessoas vivas na fogueira e tudo isto era feito em público, onde qualquer um podia assistir, incluindo até crianças. Hoje em dia, não passaria pela cabeça da grande maioria da população humana assistir a estes actos com a mesma naturalidade com que eram encarados nessa altura. É verdade que ainda existem sítios e países onde violência deste tipo continua a estar presente. É verdade que, em portugal, ainda temos touradas por exemplo, que são talvez um dos últimos resquícios deste tipo de barbaridade tornada um espectáculo público mas também é verdade que, apesar de tudo, esta vai começando a ser cada vez menos tolerada. E, na generalidade dos países ditos civilizados, acredito que caminhamos para sociedades cada vez menos violentas onde a violência gratuita é cada vez menos tolerada.

No seu livro, Melanie Joy, cita alguns estudos que chegaram à conclusão que o ser humano tem um desejo natural de não agredir, de não fazer o mal. Ela diz que se chegou à conclusão que, mesmo em cenários de guerra, a grande maioria dos soldados atira para falhar e não para acertar nos outros. Outro autor, Jonathan Haidt, estudioso da área da psicologia moral, no seu livro The Righteous Mind, também cita vários estudos que vão contra a famosa visão do gene egoísta e em que as pessoas parecem demonstrar essa propensão inata para colaborar umas com as outras sem se prejudicarem, mesmo em casos em que não se conhecem. Um desses estudos foi feito através da criação de um jogo que envolvia a distribuição de lucros e recompensas através da Internet e através do qual se concluiu que, mesmo em situações em que as pessoas não se conheciam nem se viam, a tendência geral era para distribuírem tudo de modo justo e igualitário umas pelas outras. Isto só mudava quando aparecia alguém no jogo que, propositadamente, começava a fazer as coisas funcionarem mais a seu favor. E aí, mesmo sem combinarem e sem o fazerem deliberadamente, todos os restantes participantes acabavam por se unir de forma a conseguirem castigar essa pessoa.

No seu livro Melanie Joy também fala das pesquisas que fez junto de pessoas que trabalhavam em matadouros e noutros sítios ligados à morte e ao uso de animais. Com estas pessoas Melanie Joy verificou que acontecia um de dois fenómenos: ou a pessoa ficava totalmente desligada dos seus afectos e se tornava numa pessoa fria, insensível e quase sádica capaz até de maltratar os animais de formas horríveis e sem grandes remorsos ou a pessoa acabava por ficar deprimida e com  muito mais tendência para recorrer a álcool, drogas, ou outro tipo de comportamento que a ajudasse de alguma forma a tentar recalcar todo o sofrimento que via diariamente nos animais com que tinha de lidar.

Então esta pesquisa demonstra que o ser humano, salvo raras excepções, não está preparado para lidar com esse sofrimento, porque não faz parte da sua natureza infligir dor a outros seres indefesos.

Por isso, para que esse sofrimento continue a existir, é preciso que o carnismo nos permita desligar daquilo que sentimos cada vez que vemos um animal nos nossos pratos. Precisamos de nos distanciar do que sentimos e do sofrimento que sabemos que foi provocado aquele animal para que acabasse ali na nossa mesa, para sermos capazes de o comer.

Acontece que, quando aprendemos a fazê-lo de forma automática, não é fácil voltarmos a dar espaço a esses sentimentos. Porque eles provocam mal-estar, desconforto e temos medo de não ser capazes de lidar com isso.

Muitas pessoas dizem que não são capazes de ver documentários como o earthlings, por exemplo, que retrata todo o sofrimento a que estão sujeitos os animais da indústria justamente porque não se sentem capazes de enfrentar todo esse sofrimento porque, depois de tantos anos a tentarem desligar essa parte de si próprias, pode ser muito assustador deixar que tudo volte assim, de repente. Até porque isso obriga-nos a admitir que, muitas das coisas que tomamos como certas, afinal estão mesmo profundamente incorrectas. E isto implica também aceitar que os nossos pais e professores e outras pessoas nos ensinaram coisas erradas e que, nós, muitas vezes as ensinámos também aos nossos filhos. E é precisa alguma coragem para enfrentarmos assim todas as nossas certezas e para por em causa toda a visão do mundo que fomos construindo.


Mas a verdade é que, se todo o mundo tivesse ignorado o sofrimento dos judeus e dos outros prisioneiros nos campos de concentração o mundo hoje seria um lugar muito diferente de certeza. E a verdade é que é ainda mais doloroso afastarmos-nos da nossa própria natureza. É ainda mais doloroso tentarmos esconder-nos dos nossos sentimentos e esquecermos-nos de quem somos.

E acredito que este sistema do carnismo está na base da violência contra os animais mas está também na base da violência contra nós próprios e contra os outros seres humanos. Porque quando somos ensinados, desde pequenos, a desligar-nos da nossa parte que sente, que se preocupa, que quer o bem dos outros seres, então não sabemos até que ponto é que nos estaremos a desligar não apenas dos animais mas de todos os outros seres vivos.

Há também estudos interessantes que mostram que mesmo bebés pequenos, de seis e nove meses, já reagem às injustiças. Estes bebés são colocados perante a imagem de uma figura que tenta subir uma superfície inclinada ao mesmo tempo que empurra um objecto. Pouco depois surge uma outra figura que a tenta ajudar e depois uma outra que a tenta prejudicar. No final estas figuras são disponibilizadas num tabuleiro para que a criança escolha com qual quer brincar. A grande maioria dos bebés prefere brincar com a figura que ajudou e ignora a que prejudicou. Isto demonstra que, mesmo bebés tão pequenos, já têm alguma noção do que é certo ou errado mas, acima de tudo, acredito que demonstra a nossa natureza de querer o bem dos outros seres.

Então se ensinamos a todas crianças que é bonito fazer o bem e não prejudicar ou magoar os outros devemos começar a ensiná-los que isto é válido também para os animais, para todos os animais, não apenas para os gatos e cães. E, se lhes ensinarmos isto acredito que lhes estamos a dar espaço para crescerem em harmonia com os outros mas também consigo próprias.

Porque dói cada vez que vejo alguém por um cadáver na mesa e comê-lo como se nada fosse, porque dói cada vez que vejo alguém despejar pacotes de leite para fazer um bolo sem se preocupar com o que está por trás disso, porque dói cada vez que vejo crianças e adolescentes a aprenderem a alimentar-se dos corpos de outros seres e dói ainda mais cada vez que o fazem na mesma mesa que eu. Sim, dói constatar diariamente esse sofrimento nas prateleiras dos supermercados, nas montras dessas lojas de cadáveres a que chamam talhos e até nos pés das pessoas que usam restos de outros seres como se ainda fôssemos homens primitivos que não têm ao seu dispor mais do que a pele dos animais que matam para se protegerem do frio. Tudo isto dói e dói ainda mais quando ainda por cima precisamos de nos calar porque nós é que somos extremistas e radicais e não devemos perturbar o repasto das outras pessoas. Mas, mais do que todas estas dores, dói mesmo, de verdade, quando nos distanciamos de nós à custa de querermos esquecer a nossa verdadeira natureza. Dói mesmo quando deixamos de dar valor aos nossos sentimentos apenas para não nos incomodarmos a nós e os outros. E, mais do que qualquer outra dor que sei que não vou poder evitar, não quero que o meu filho sinta a dor de não poder ouvir o seu coração, de não poder ser ele próprio de não poder estar em paz com a sua consciência.

Quero que o meu filho cresça com a paz, com a liberdade e com a tranquilidade de coração que vejo no vídeo destas crianças que aqui deixo. Porque, se para muitos o veganismo é um caminho de repressão porque temos de fazer escolhas e de nos privar de algo, para mim é um caminho de liberdade. De verdadeira liberdade porque nos permite estar em paz connosco, com a nossa consciência e com a natureza.
                                                 


                                                       Vídeo - crianças veganas